Memórias de um estádio de repressão

O advogado Manoel Martins volta ao local onde ficou preso, em 1964, durante a ditadura militar

Cenário de diversos campeonatos esportivos, o Complexo Esportivo Caio Martins, em Icaraí, também foi palco de tristes episódios por certo período da História brasileira. O local serviu de prisão política logo após o golpe militar, em 1964, mas, no dia 4 de junho, sediará uma cerimônia de reparação a presos políticos vítimas da ditadura, promovida pelo governo estadual. A presidente Dilma Rousseff integra lista de 120 pessoas que receberão cartas com pedido de desculpas do governador Sérgio Cabral, mas ainda não confirmou presença.

O advogado Manoel Martins, de 88 anos, sentiu na pele a repressão do regime militar em solo niteroiense. Ele foi um dos últimos presos a deixar o Caio Martins, em julho de 1964. De acordo com seus relatos, no começo da prisão — em abril daquele ano — houve um pico de mais de 600 prisões e, ao longo de seus três meses de cárcere, cerca de 1.200 pessoas passaram por lá.

— Fui preso no dia 9 abril de 1964, após meu escritório, na Avenida Amaral Peixoto, ter sido devassado, assim como muitos lares em Niterói. Na época, eu era militante comunista e advogado dos principais sindicatos do estado. Depois de passar pelo reduto de repressão da Marinha, na Ponta d’ Areia, e pelo Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, fui levado com meus companheiros, no dia 20, para o Caio Martins, que estava abarrotado de gente. Todos os dias chegavam caminhões lotados de presos. As condições eram desumanas. Fomos submetidos a todo tipo de humilhação.

Retornar ao local ainda é difícil para Martins.

— Uma das imagens mais marcantes foi o dia em que abriram os portões do gramado para tomarmos sol. A cena daquelas pessoas rolando na grama nunca saiu da minha cabeça. Anos depois, voltei ao estádio, levado por meu neto, para assistir a uma partida de futebol e não aguentei ficar lá — lembra o advogado.

Além do pedido de desculpas, os homenageados receberão indenização de R$ 20 mil. Desde que foi criada em 2001, a lei 3.744, de reparação a pessoas detidas acusadas de crimes políticos, já foram pagas 650 indenizações e restam 245 até 2013.

— Em defesa da democracia, pessoas foram presas ou interrogadas dentro de um órgão do estado na presença de um agente público. Por isso, o pedido de desculpas e a indenização — explica o secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, Rodrigo Neves.

http://oglobo.globo.com/niteroi/memorias-de-um-estadio-de-repressao-5027623

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